Arquivo do mês: dezembro 2008

bandeiras

No Obradoiro.

Galícia Legendada

Música: Re: Stacks (Bon Iver) – por enquanto não consegui fazer download de músicas galegas, então infelizmente esse vídeo teve que ir com uma trilha substituta

Em 20 de dezembro, meu amigo do máster Víctor e eu fomos ao Centro de Treinamento do Deportivo La Coruña, ver o último treino do ano e conversar com o Filipe Luís, o lateral brasileiro que joga aqui desde 2006.

Na volta, eu tinha 10 minutos de filme sobrando na máquina e resolvi gastar tudo filmando o trajeto entre Abegondo (onde fica o CT) e… o pedaço de estrada a 10 minutos de distância. Um cachorro perdido no meio do caminho forçou a parada brusca do carro, e por isso o vídeo só tem a metade do que eu filmei. Mesmo assim, consegui encontrar várias facetas interessantes sobre a Galícia para destacar nas legendas.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

PS: dedicado à amante das paisagens, Tia Heleninha.

olha o milagre ali atrás

Na categral de Santiago de Compostela.

en galego para vostedes

Desfazendo mitos climáticos

Nenhuma nuvem por aqui desde o dia 19

Sim, estou na Europa. Não, aqui não neva, porque estamos na costa. E, aliás, não aparece nuvem por aqui desde o dia 19. Tudo azul, literalmente, nessas férias de inverno. (a foto mostra a vista do meu apartamento)

Uma lição de gentileza

Publicado originalmente aqui.

Desde que eu deixei de ser professora do jardim da infância, iniciei um processo de libertar os outros das minhas lições e ordens como lavar as mãos antes de comer, jogar o lixo no lugar certo e compartilhar o brinquedo com os amiguinhos. Quer dizer, o processo foi de me libertar da vontade de ordenar os outros, por mais que as ordens fossem coisas fundamentais e obrigatórias para a vida, como lavar as mãos antes de comer, jogar o lixo no lugar certo e compartilhar o brinquedo com os amiguinhos.

Portanto, esse conselho abaixo é totalmente facultativo, e regado de parênteses, porque faz parte do meu show.

Paco Sánchez adora descrever a impressão geral que se tem dos brasileiros como “chaotic, erotic, exotic” (N.R.: essa não é a opinião pessoal do Paco, que fique bem claro). Foi o primeiro de quem eu ouvi isso, mas faz todo o sentido resumir assim o imaginário que os de fora têm sobre a gente. Já vivi isso na pele em todos os países por onde passei (inclusive no sábado retrasado. Mas isso é história para outro post).

Assim como os franceses são fedidos, os ingleses têm dentes ruins, os alemães nunca nem se tocam, os argentinos são arrogantes, os italianos vivem até os 40 anos na casa das respectivas mães e os estadunidenses são burros.

E dos espanhóis, que idéia temos? “Pessoas grossas e mal-humoradas”, como ouvi antes, durante e depois da viagem até aqui. Não falam “oi”, “desculpe”, “por favor”, estão sempre carrancudos e resmungando palavras ininteligíveis para quem não domina o idioma.

Joder é quase o “oi” deles, me disseram. (joder é mais ou menos um putz ou droga, até onde eu consegui analisar. Não é puta, nem porra, porque até os professores falam durante a aula – até o Paco!)

Pois eram quase 17h no meu segundo dia nesse país cheio de “gente rude”. O cozinheiro da Venezuela estava trabalhando. O designer de Santiago estava dormindo porque tinha ido pra balada no sábado. O bancário de Estorde ainda estava de férias em Edimburgo. E o estômago roncando. E a geladeira vazia. E os supermercados fechados.

Depois de dormir por umas dozehorasseguidasporqueaviagempareceufácilmasnãofoinão, comecei a namorar a lanchonete da esquina de trás do prédio, que eu podia ver claramente da janela. Vicente (o cozinheiro) havia dito que lá dava para comer unas tapas (uma tapa não é um tipo de comida – viu, @markun? –, mas uma forma de comer. São como as fingerfood da América do Norte, ou seja, comida servida em cafés ou bares em porções pequenas e a preços irrisórios. Pode ser tortilla, calamares, croquete etc.).

E eu queria experimentar a tal da tortilla (não prendam o fôlego, tortilla é omelete com batata no meio; é uma delícia, mas nem de longe tão atraente como soa o nome). Estava iniciada a operação.

O primeiro passo foi descobrir se a lanchonete estava aberta àquela hora. Alguns minutos de tocaia e uma pessoa saiu de lá. Então vesti a japona e fui.

As lanchonetes são geralmente iguais por aqui: balcões de madeira escura, chão de mármore e cadeiras e mesas combinando com o resto. Quase todas têm máquinas caça-níquel ainda a salvo da fome do Andrea Matarazzo e sempre, invariavelmente, há dois velhinhos realizando alguma atividade coletiva no recinto. Pode ser dominó, comentário de futebol, piadas ou o às vezes nem tão simples silêncio. Nesse caso, a dupla oficial assistia a partida do Deportivo de La Coruña, que começou assim que eu entrei. Além deles, só a dona do bar sentada no canto lendo uma revista.

Ao me ver, ela deixou a leitura de lado e veio direto descobrir o que eu queria. Mas… o que era mesmo, gente?

O balcão estava limpíssimo. Isso quer dizer sem sujeira nem comida. A cozinha era um silêncio só. Pronto, cheguei e a lanchonete já estava fechando. Lá vou eu importunar a mulher em pleno domingo.

– Que quieres? (Dica: Nunca hesite na primeira fala do diálogo. Pense numa frase simples e manda ver. Senão você vira presa fácil.)
– Perdón… Es que yo soy de Brasil y mi castellano es muy malo. (Dica: Faça o que eu digo, nunca o que eu faço.)
– Sí, por eso no entiendo nada de lo que me dices.

Ok, a senhora não vai perdoar mesmo eu ter interrompido seu consumo de fofocas do Gran Hermano ou do X-Factor (respectivamente, Big Brother e American Idol).

– Tienes tortillas?
– Por supuesto… (e aquela cara de “deixei a minha revista por ISSO?”)

Claro, Carolina, tem tortilla. Você queria que a lanchonete sem barulho na cozinha e sem comida no balcão não tivesse tortilla?

– Entonces quiero uma tortilla y… un Nestea, por favor. (Dica: Na dúvida, vá com o industrializado. Não invente um suco de laranja natural com uma pedra de gelo!)

E logo veio a tortilla e o chá gelado. Ela me olhou, não escreveu valor nenhum em papel nenhum e nem voltou para o banco e a revista. Lembrei! O Marcos, na véspera, pagou na hora nossa comida no outro boteco onde fomos. Tirei a carteira da mochila e passei o euro e oitenta centavos que me custou a tapa.

– Muchas gracias! (Dica: Ao falar obrigado, em qualquer idioma, fale com a boca cheia! Sinta-se à vontade inclusive para exagerar um pouquinho. O meu saiu “muuuchas gráciás!”. Mas, claro, tome cuidado para não denotar falsidade ou sarcasmo)

Sentei para comer atrás dos freqüentadores profissionais de lanchonetes e, como futebol é minha praia, já fui logo perguntando contra quem jogava o Dépor. Engatei com a resposta deles a informação de que eu torcia para o São Paulo e se eles conheciam. Como o Barcelona é nosso freguês, só quem odeia futebol desconhece o Tricolor Mais Querido. Isso não quer dizer que os grisalhos me deram bola.
Ficaram lá, resmungando o castelhano proibido para estrangeiros a cada erro do Dépor e nem olharam mais para trás.

Comi a tortilla e continuei a prestar atenção no jogo, sem me dar por vencida de sair de lá com uma má impressão daquele pessoal. Afinal, eles têm dezenas de anos de experiência em povoar bares, cafeterias e lanchonetes por toda a Espanha – e quem sabe fora daqui também. Não têm obrigação de fazer sala para uma menina que só entende 50% dos grunhidos verdadeiramente galegos.

Terminei o meu omelete de luxo e aí surgiu mais uma dúvida: levanto e saio andando, como a maioria dos brasileiros metidas das praças de alimentação, ou levo prato, talheres, copo e garrafa até a senhora? Olhei para ela. Ela olhou para mim. Levantei da cadeira. Ela levantou do banco. Peguei o prato e levei para o balcão, enquanto ela ia ao meu encontro. Voltei, peguei copo e garrafa e deixei no balcão de novo. Ela pegou tudo, pigarreou e disse:

– Muito obrigada!

Assim, em português mesmo. E com ênfase no “mu”.

A lição, se ainda não ficou clara, é a seguinte: as pessoas são gentis com você na mesma medida da sua gentileza para com elas. Não importa a latitude e longitude indicadas no seu GPS.

Listaxe* #1: Natal (ou “Kevin!!!”**)

Palmas das mãos sobre as duas bochechas, boca bem aberta e um grito estridente. Eu fui Macaulay Culkin em Esqueceram de Mim hoje à noite. Brinquei com a situação desde o domingo à tarde, quando a Ana María viajou para Vigo e eu fiquei sozinha aqui no apartamento que a gente divide com a Marina (que foi para o Brasil na sexta-feira) em A Coruña. Mas juro que eu realmente tinha planos de passar o Natal como mandam os ritos: em alguma sala com árvores decoradas, presentes e gente para abraçar meio desconfortavelmente quando o relógio zerasse o dia 25.

Mas, como disse a María Isabel, a venezuelana com quem eu iria jantar hoje, Natal não se faz com vestidos novos e cabelos bem penteados. E, por motivos que não posso revelar aqui (até porque não os conheço inteiramente), sobrei. Até tinha planos alternativos, mas o A caiu muito em cima da hora para acionar o B. E foi assim que eu ganhei uma experiência a mais sobre todos vocês, reles mortais que vivem perto das respectivas famílias: passei um Natal sozinha.

Com estilo, é claro. Vestido novo, meia-calça vermelha combinando com o sapato, patê de queijo e até tortinha de maçã de sobremesa. Uma ligação ao Brasil pelo Skype para falar com os pais e a vovó e, além do filme de Natal engraçadinho (pensei em rever o bom e velho Home Alone mas seria clichê demais), a única menção à data é o cartão-postal que o meu amigo enviou. Eu, que adoro um desafio (já pesquei no gelo, ora) e tenho pouca paciência para rituais mecânicos (sou sempre aquela que foge de fininho da festa – até das minhas – para ver TV ou cochilar em algum quarto), passei a noite muito bem, obrigada.

O que a Galícia tem a ver com isso? Talvez seja a dispersão populacional da comunidade autonômica a responsável pela ausência de seres humanos na cidade (todo mundo é de algum povoado ou aldeia). Às 5h37, é a única teoria que eu me atrevo a explorar.

Mas criei esse blog justamente para falar sobre a Galícia (outras loucuras minhas você encontra aqui). Então segue a primeira da série de Listaxes (*listagens, em galego) que eu vou fazer sobre essa gente tão parecida e tão diferente:

1- Comida: O destaque vai para o turrón. É como um torrone, mas se parece mais com um chocolate. Entretanto, nem se atreva a dizer que é chocolate, ok? E é a única sobremesa específica de Natal por aqui, segundo a Marina, a maior estudiosa da cultura galega que eu conheço.

(no vídeo: o supermercado – e as mesas de turrones – no dia 24 de dezembro)
Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

2- Presentes: Pode parecer muito difícil para as crianças se segurarem até o Dia de Reis (6 de janeiro) para abrir seus presentes. Eles inclusive escrevem suas cartinhas para os Três Reis Magos, e não para o Papai Noel.  O lado bom de tudo isso, até onde eu pude apurar, é que as minhas férias só acabam no dia 7 de janeiro. Imagino que para a produtividade dos espanhóis a desvantagem seja maior.

3- Decorações: Esqueçam a Avenida Paulista, a João Cachoeira (nem começo essa lista porque vai longe) e a competição de quem consegue colocar o maior número de luzes e bonecos simbólicos de países nórdicos nas calçadas. À exceção das luzes “oficiais” da cidade, só vi UMA (sim, UMA) varanda com luzes de Natal. Dentro de casa sim, a árvore é normal. Mas tudo que gasta eletricidade mais do que o necessário, inclusive em ano da tal da crise, é dispensado na hora. E já que estamos no assunto, as luzes oficiais são… verdes e amarelas. Umas formam desenhos de sinos, outras de pombas, outras de… um cacho de uvas. Sim, perto do estádio do Deportivo La Coruña há uma rua repleta de cachos de uvas iluminados com mini-lâmpadas verdes e amarelas. Estréio aqui, portanto, a categoria “Choque cultural”, que pensei em chamar carinhosamente de “Alguém me explica?”.

**Ah, não me diga que você não se lembra do berro que a mãe do Macaulay Culkin dá no filme, quando percebe que esqueceu um dos filhos sozinho em casa?