Uma lição de gentileza

Publicado originalmente aqui.

Desde que eu deixei de ser professora do jardim da infância, iniciei um processo de libertar os outros das minhas lições e ordens como lavar as mãos antes de comer, jogar o lixo no lugar certo e compartilhar o brinquedo com os amiguinhos. Quer dizer, o processo foi de me libertar da vontade de ordenar os outros, por mais que as ordens fossem coisas fundamentais e obrigatórias para a vida, como lavar as mãos antes de comer, jogar o lixo no lugar certo e compartilhar o brinquedo com os amiguinhos.

Portanto, esse conselho abaixo é totalmente facultativo, e regado de parênteses, porque faz parte do meu show.

Paco Sánchez adora descrever a impressão geral que se tem dos brasileiros como “chaotic, erotic, exotic” (N.R.: essa não é a opinião pessoal do Paco, que fique bem claro). Foi o primeiro de quem eu ouvi isso, mas faz todo o sentido resumir assim o imaginário que os de fora têm sobre a gente. Já vivi isso na pele em todos os países por onde passei (inclusive no sábado retrasado. Mas isso é história para outro post).

Assim como os franceses são fedidos, os ingleses têm dentes ruins, os alemães nunca nem se tocam, os argentinos são arrogantes, os italianos vivem até os 40 anos na casa das respectivas mães e os estadunidenses são burros.

E dos espanhóis, que idéia temos? “Pessoas grossas e mal-humoradas”, como ouvi antes, durante e depois da viagem até aqui. Não falam “oi”, “desculpe”, “por favor”, estão sempre carrancudos e resmungando palavras ininteligíveis para quem não domina o idioma.

Joder é quase o “oi” deles, me disseram. (joder é mais ou menos um putz ou droga, até onde eu consegui analisar. Não é puta, nem porra, porque até os professores falam durante a aula – até o Paco!)

Pois eram quase 17h no meu segundo dia nesse país cheio de “gente rude”. O cozinheiro da Venezuela estava trabalhando. O designer de Santiago estava dormindo porque tinha ido pra balada no sábado. O bancário de Estorde ainda estava de férias em Edimburgo. E o estômago roncando. E a geladeira vazia. E os supermercados fechados.

Depois de dormir por umas dozehorasseguidasporqueaviagempareceufácilmasnãofoinão, comecei a namorar a lanchonete da esquina de trás do prédio, que eu podia ver claramente da janela. Vicente (o cozinheiro) havia dito que lá dava para comer unas tapas (uma tapa não é um tipo de comida – viu, @markun? –, mas uma forma de comer. São como as fingerfood da América do Norte, ou seja, comida servida em cafés ou bares em porções pequenas e a preços irrisórios. Pode ser tortilla, calamares, croquete etc.).

E eu queria experimentar a tal da tortilla (não prendam o fôlego, tortilla é omelete com batata no meio; é uma delícia, mas nem de longe tão atraente como soa o nome). Estava iniciada a operação.

O primeiro passo foi descobrir se a lanchonete estava aberta àquela hora. Alguns minutos de tocaia e uma pessoa saiu de lá. Então vesti a japona e fui.

As lanchonetes são geralmente iguais por aqui: balcões de madeira escura, chão de mármore e cadeiras e mesas combinando com o resto. Quase todas têm máquinas caça-níquel ainda a salvo da fome do Andrea Matarazzo e sempre, invariavelmente, há dois velhinhos realizando alguma atividade coletiva no recinto. Pode ser dominó, comentário de futebol, piadas ou o às vezes nem tão simples silêncio. Nesse caso, a dupla oficial assistia a partida do Deportivo de La Coruña, que começou assim que eu entrei. Além deles, só a dona do bar sentada no canto lendo uma revista.

Ao me ver, ela deixou a leitura de lado e veio direto descobrir o que eu queria. Mas… o que era mesmo, gente?

O balcão estava limpíssimo. Isso quer dizer sem sujeira nem comida. A cozinha era um silêncio só. Pronto, cheguei e a lanchonete já estava fechando. Lá vou eu importunar a mulher em pleno domingo.

– Que quieres? (Dica: Nunca hesite na primeira fala do diálogo. Pense numa frase simples e manda ver. Senão você vira presa fácil.)
– Perdón… Es que yo soy de Brasil y mi castellano es muy malo. (Dica: Faça o que eu digo, nunca o que eu faço.)
– Sí, por eso no entiendo nada de lo que me dices.

Ok, a senhora não vai perdoar mesmo eu ter interrompido seu consumo de fofocas do Gran Hermano ou do X-Factor (respectivamente, Big Brother e American Idol).

– Tienes tortillas?
– Por supuesto… (e aquela cara de “deixei a minha revista por ISSO?”)

Claro, Carolina, tem tortilla. Você queria que a lanchonete sem barulho na cozinha e sem comida no balcão não tivesse tortilla?

– Entonces quiero uma tortilla y… un Nestea, por favor. (Dica: Na dúvida, vá com o industrializado. Não invente um suco de laranja natural com uma pedra de gelo!)

E logo veio a tortilla e o chá gelado. Ela me olhou, não escreveu valor nenhum em papel nenhum e nem voltou para o banco e a revista. Lembrei! O Marcos, na véspera, pagou na hora nossa comida no outro boteco onde fomos. Tirei a carteira da mochila e passei o euro e oitenta centavos que me custou a tapa.

– Muchas gracias! (Dica: Ao falar obrigado, em qualquer idioma, fale com a boca cheia! Sinta-se à vontade inclusive para exagerar um pouquinho. O meu saiu “muuuchas gráciás!”. Mas, claro, tome cuidado para não denotar falsidade ou sarcasmo)

Sentei para comer atrás dos freqüentadores profissionais de lanchonetes e, como futebol é minha praia, já fui logo perguntando contra quem jogava o Dépor. Engatei com a resposta deles a informação de que eu torcia para o São Paulo e se eles conheciam. Como o Barcelona é nosso freguês, só quem odeia futebol desconhece o Tricolor Mais Querido. Isso não quer dizer que os grisalhos me deram bola.
Ficaram lá, resmungando o castelhano proibido para estrangeiros a cada erro do Dépor e nem olharam mais para trás.

Comi a tortilla e continuei a prestar atenção no jogo, sem me dar por vencida de sair de lá com uma má impressão daquele pessoal. Afinal, eles têm dezenas de anos de experiência em povoar bares, cafeterias e lanchonetes por toda a Espanha – e quem sabe fora daqui também. Não têm obrigação de fazer sala para uma menina que só entende 50% dos grunhidos verdadeiramente galegos.

Terminei o meu omelete de luxo e aí surgiu mais uma dúvida: levanto e saio andando, como a maioria dos brasileiros metidas das praças de alimentação, ou levo prato, talheres, copo e garrafa até a senhora? Olhei para ela. Ela olhou para mim. Levantei da cadeira. Ela levantou do banco. Peguei o prato e levei para o balcão, enquanto ela ia ao meu encontro. Voltei, peguei copo e garrafa e deixei no balcão de novo. Ela pegou tudo, pigarreou e disse:

– Muito obrigada!

Assim, em português mesmo. E com ênfase no “mu”.

A lição, se ainda não ficou clara, é a seguinte: as pessoas são gentis com você na mesma medida da sua gentileza para com elas. Não importa a latitude e longitude indicadas no seu GPS.

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4 Respostas para “Uma lição de gentileza

  1. haha, que mentira, vc toda fofinha…não é uma fora da lei!

  2. Eh, Eh! Eu so falo isso para criticar o cliché!
    Feliz Natal, Carol

  3. Ainda bem que vc deu uma ajeitada con essa N. R: 🙂

  4. Sinto dizer, eles são mal educados mesmo. Não depende de nada…

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