Meu primeiro terremoto

Não avisei que passaria o feriado na Itália porque esqueci. Fui encontrar meus pais e irmãs, que estão passando três semanas de férias na Europa. Entre os dias 3 e 10 de abril, visitei Roma, Vaticano, Siena, Pisa, Florença e Milão. Estávamos em Roma durante o terremoto, dormindo profundamente depois de 12 horas de intensa caminhada. Só ficamos sabendo que um terremoto havia chegado até ali na manhã seguinte. Escrevi uma crônica para o Terra Magazine que reproduzo aqui, para quem quiser saber mais sobre as minhas impressões do abalo.

PS: É estranho voltar da Itália para a Espanha e pensar “lar, doce lar”?

Na Itália, turistas acompanham tragédia pela TV

Ana Carolina Moreno/Terra Magazine

Na Itália, mulheres da Cruz Vernelha estão mobilizadas para ajudar as vítimas dos terremotos

Na Itália, mulheres da Cruz Vernelha estão mobilizadas para ajudar as vítimas dos terremotos

Ana Carolina Moreno
Da Itália, especial para Terra Magazine

O mar de cadeiras de plástico esparramadas de maneira pouco ortodoxa pela Praça de São Pedro era prova indubitável, junto com o mau humor geral dos funcionários da segurança, de que o Vaticano acordara de ressaca naquela segunda-feira. Sinal de que o Domingo de Ramos havia rendido. O dia seguinte ao início da Semana Santa começou exatamente igual a todas as outras edições do principal feriado cristão: com um verdadeiro rebanho de turistas atrás dos tesouros que os papas acumulam desde a Renascença. Quem deu a notícia, seis horas após a tragédia, foi James, guia turístico.

– Vocês sentiram o terremoto ontem? Sim, é verdade, houve um terremoto de madrugada, 3,8 na Escala Richter, 16 pessoas morreram. Mas o epicentro foi em uma cidade a uns 60 quilômetros de Roma.

Um casal de salvadorenhos mencionou ter visto algo na CNN antes de sair do hotel. James encerra o assunto com uma piada:

– É o terceiro terremoto que eu perco por estar dormindo…

São nove horas da manhã e, como o terremoto aconteceu de madrugada, os jornais do dia não tiveram tempo de trazer mais que a previsão de tempo ensolarado para a capital italiana, algum rescaldo do último escândalo do jogador brasileiro Adriano, da Inter de Milão, e alguma nota sobre imigrantes romenos atacados por neofacistas. Dentro do menor país do mundo, a Cidade-Estado do Vaticano, não há bares com o típico grupo de aposentados dando palpites sobre todos os assuntos, ou restaurantes com televisão para que seja possível acompanhar as notícias de hoje. Só resta aos quase dez mil italianos e estrangeiros, mesclados igualitariamente, sem discriminação religiosa, viver por algumas horas o passado glorioso dos grandes mestres renascentistas Michelangelo e Rafael.

A Semana Santa mal chegou ao seu ápice e a situação já é totalmente oposta. L’Aquila é um nome conhecido por qualquer pessoa que tenha passado por uma banca de jornal em território italiano nos últimos três dias. A cada nova edição impressa, sobe o número de mortos, surgem alertas de novos tremores e, raramente, conta-se uma história de sobreviventes. O papa Bento XVI, pego de surpresa na semana mais importante do ano, emite comunicados diários dizendo que reza principalmente pelas crianças mortas, enquanto espera um espaço na agenda para visitar a região. A missa oficial desta Sexta-Feira da Paixão – decretada dia de luto nacional pelas mortes em Abruzzo – na Praça de São Pedro terá menção especial às vítimas e sobreviventes do terremoto, enquanto um funeral coletivo será realizado pelo arcebispo de L’Aquila, sem a presença do pontífice.

As buscas pelos últimos desaparecidos se encerram no Domingo de Páscoa. Mas, entre os turistas que já tranquilizaram seus parentes preocupados, o assunto só surge quando alguma televisão está ligada. Quando é o caso, não há como desviar do tema. Todos os noticiários e programas de auditório dedicam suas transmissões à exploração de qualquer detalhe sobre a tragédia.

Até o Grande Fratello, a versão italiana do reality show Big Brother, começou sua edição da quarta-feira com as imagens editadas da casa onde oito homens e mulheres estão confinados, em Roma. O tremor chegou a fazer tremer as câmeras, acordou quem dormia e fez quem estava acordado fugir correndo para o quintal.

Na terça-feira, os participantes do programa sabiam o mesmo que os turistas: o terremoto havia feito 90 vítimas, ferido 1.500 e danificado estruturas importantes de L’Aquila, como a prefeitura e o hospital da cidade. No vilarejo de Onna, apenas uma casa saiu ilesa do abalo sísmico, que não era de 3,8, mas de 6,3 na Escala Richter. Dentro do Coliseu e de outros sítios arqueológicos, porém, o assunto eram as ruínas da época do Império Romano.

Passado o choque, a população italiana começou a se movimentar para enviar ajuda. Em Siena, ao meio-dia de quarta-feira, três senhoras chamavam a atenção em frente a uma das igrejas da cidade medieval toscana. Eram voluntárias da Seção Feminina da Cruz Vermelha Italiana de Siena. Com uma mesa, um talão de notas, panfletos fotocopiados e um cartaz branco escrito a mão com caneta vermelha, explicaram que já haviam colhido doações em dinheiro de cerca de 50 pessoas naquele dia, e esperavam chegar a cem.

– Qualquer pessoa pode doar qualquer valor. Toda ajuda conta – explicou a senhora do meio, Maria de Grazia.

A gerente de recursos humanos paulista Ninon Amorim, de 48 anos, estava em Milão na noite de domingo para segunda, em uma viagem pela Itália com um grupo de 47 turistas. Até o fim da semana chega em Roma, onde o terremoto chegou a provocar danos mínimos em algumas estruturas. Antes de visitar o Batistério de João Batista, ontem em Florença, ela afirmou não ter medo de seguir a viagem.

– Fiquei preocupada, mas não tinha noção da dimensão dos estragos. Só com o passar dos dias percebi que o terremoto foi grande mesmo.

O tamanho da generosidade dos italianos parece seguir a mesma proporção. De acordo com Ricardo Mansani, que trabalha para a Misericórdia de Florença, a população da Toscana já doou três milhões de euros para a Defesa Civil da região de Abruzzo. Já é possível doar pelo celular e nas agências bancárias. Mas quem não tem telefone ou conta de banco italianos, só pode contribuir se reparar, entre tantos monumentos históricos florentinos, na placa onde se lê “Emergência Terremoto Abruzzo”. Apenas duas pessoas que não vestiam o uniforme da entidade chegaram a entrar no edifício, na manhã de quinta-feira.

Matteo Madrigali, de 29 anos, ainda não fez a sua parte. Prefere esperar até que o governo tenha um plano detalhado de ação. Ele desconfia de possíveis oportunistas. Assim como a maioria, Matteo não culpa a administração atual pela situação precária das estruturas, que poderiam ter salvo boa parte das 290 vítimas, segundo a última contagem.

– O novo código de obras existe desde 1980, então, se há culpa, ela é de todas as gestões passadas. O pior foi que eles tiveram que levar os prisioneiros mafiosos para Roma. Eles são pessoas muito perigosas e estavam todos em L’Aquila, mas agora não está seguro deixá-los lá.

Detalhes como esse, além da contagem quase em tempo real do número de mortos, são desconhecidos dos turistas. Um grupo de argentinos – alguns deles italianos que emigraram quando crianças – estava no navio a caminho da Itália quando descobriu que a região de um deles havia sido fortemente atingida pelo terremoto. Desde então, tentam seguir as notícias, porque seu itinerário inclui uma visita a L’Aquila.

Segundo a contadora Amalia Torta, de 59 anos, uma das senhoras chegou a cogitar mudar os planos. Mas, até agora, todos seguem firme no trajeto inicial, mesmo acreditando que ainda haja “uns mil desaparecidos”. O número oficial é de dez pessoas que ainda não foram encontradas nos escombros. Um tema, no entanto, ninguém ignora: as críticas ao primeiro-ministro Silvio Berlusconi por não ter escutado os alertas do técnico Giampaolo Giuliani sobre o vazamento anormal de gás naquela região, em março.

Quem conhece tanto a perspectiva local quanto a estrangeira entende o distanciamento que os turistas atualmente na Itália mantêm do tema. A jornalista americana Alexandra Lawrence, de 32 anos, vive na Itália há uma década e, mesmo tendo sentido dezenas de tremores desde então, vê como normal o fato de os visitantes estarem mais preocupados com as filas dos museus ou o preço abusivo de uma lata de refrigerante.

O acompanhante turístico Filippo vive na Espanha, mas passa o feriado em seu país natal, a Itália, e disse que esse foi o terremoto mais forte que já sentiu. Ele via televisão em seu quarto em Roma e se assustou tanto que não pôde mais dormir.

– Entre os italianos a gente tem falado muito sobre o terremoto, mas com os turistas não escuto nada sobre o tema. Eles não são afetados diretamente, então eu entendo a posição deles.

Filippo mostra como a Itália reage à tragédia. Acostumados com abalos sísmicos acima de 5 pontos na Escala Richter (esse foi o sétimo desde 2002), eles se unem em solidariedade às vítimas enquanto cobram, com certa resignação, por construções mais seguras. Acostumados com o grande fluxo turístico (só em Roma, são 18 milhões de visitantes por ano), eles não se incomodam com o fato de sua tragédia pessoal ser percebida como mais uma pitoresca história que levarão da viagem, como as impressões que tiveram da Capela Sistina. De qualquer maneira, nunca o presente ocupou tanto espaço nas históricas celebrações cristãs da Semana Santa italiana.

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