Arquivo do mês: maio 2009

Morno nunca! (infelizmente)

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Em espanhol, “templado” significa “morno”. Segundo a Real Academia Española, que fiscaliza todos os meus passos nesse país, com mais afinco que qualquer órgão policial, há muitos significados para essa palavra, mas fico com o número 3:

“Que no está frío ni caliente, sino en un término medio.”

Ou seja, morno.

O problema, nesse caso, não é a distância entre a RAE e o idioma vivo que se fala por todos os cantos (e ainda se mistura, aqui no meu paizinho, ao galego, e cria uma intrigante teia lingüística onde ou existem inúmeros idiomas, ou todos sao um só). O problema é que não existe morno na Espanha. Nada tem a temperatura em um termo médio, que não está frio nem quente.

Exemplo 1: a torneira da cozinha. Para lavar a louça, é ótimo não ter apenas água fria, porque é a quente que ajuda a tirar a gordura dos pratos. Então abro a torneira no meio, um pouco mais para o quente, porque não quero água fria, mas meus dedos não querem se queimar. Resultado? A água fica fria. Solução? Abrir a torneira no lado quente e agüentar o máximo que der, mudar para a fria para dar um alívio e voltar a enfrentar o fogo líquido. Adivinha quem demora mais para lavar a louça? o/

Exemplo 2: as torneiras da pia do banheiro. São duas: a quente e a fria. A quente fica à esquerda e tem um sinalzinho vermelho. A azul da direita, obviamente, indica que dali a água só sai para congelar. Parecem torneiras normais, universais, nenhuma problema cultural. Já estão com a borracha um pouco gastas, e por isso a pressão não é das melhores. Para o simples ato de enxagüar a boca depois de escovar os dentes, não posso abrir apenas a quente, que me queima em cinco segundos e, aos dez, só cai um fiozinho de água.Felizmente, em se tratando de demora, a Nita é quem ganha, porque eu não faço escova nem passo maquiagem antes de sair de casa.

Exemplo 3: as torneiras do chuveiro. Seriam iguais às do exemplo 2, não fosse sua posição estratégica, que aumenta exponencialmente seu potencial de destruição. Todas as manhãs estou eu ali, com o órgão mais extenso do meu corpo totalmente vulnerável, enfrentando o bendito chuveiro anti-morno sem qualquer possibilidade de defesa. Me lembra meu amigo Fred, que adora a expressão “Quente ou frio. Morno nunca!” Entro com cautela, como o Mario (o irmão do Luigi) quando vai à sala onde precisa enfrentar o chefão antes de passar de fase. Viro o chuveiro para o lado da parede, para não ser atingida de primeira por esse bicho imprevisível, começo a temperar a água com a torneira da banheira, onde só as minhas mãos enfrentam o monstro temperamental, enquanto meus pés tentam fugir da água que escorre. Giro a da esquerda 300 graus, e a da direita apenas 90. Depois de cinco meses de prática quase diária, é essa a posição mais próxima que encontrei do tal templado.

Na verdade, é um quente mais ou menos tolerável, porque durante o banho começa outro ritual. Depois de alguns minutos, a água esquenta cada vez mais, mesmo que eu não mova a torneira. Então começo a abrir a torneira fria, olhando para o outro lado, assoviando como quem não quer nada, tentando despistar o Bowser Koopa e salvar a princesa. De milímetro em milímetro, em busca do morno. De repente, Bowser grita:

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“¡Aquí no hay templado! ¡Grawr!”

E eu grito uma frase impublicável, mas que rima com “puxa, que frio!”.

Volto ao ritual primeiro: fecha tudo, abre torneira da banheira, 300 graus à esquerda, 90 à direita, espera esquentar, e segue a vida.

Já tentei agüentar o calor vulcânico, mas depois fico com a pele seca e vermelha. Sem contar a tortura do durante. As outras chicas que moram comigo nunca tiveram problema com a água quente. Adivinha, então, quem leva mais tempo na ducha? o/

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E qual o motivo dessa história toda? Como diriam os gênios do Monty Python: “always look on the bright side of life”.

Sábado quebrou o aquecedor. A água de casa tá mais fria que o mar coruñes. Finalmente um incentivo eficaz para que eu vá diariamente à academia. Porque, entre lutar contra quente e frio (lá é igual), e agüentar só o frio…