Madri amarga derrota e o fim do sonho olímpico de 2016

Publicado originalmente no Terra Magazine em 2 de outubro de 2009.

Madri amarga derrota e o fim do sonho olímpico de 2016

Ana Carolina Moreno, de La Coruña
Especial para Terra Magazine

Quando foi anunciada a eliminação de Chicago, as dezenas de milhares de pessoas reunidas no centro de Madrid levantaram exultantes suas coloridas e gigantes mãos – o símbolo da candidatura da capital espanhola para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Pela televisão, parecia que anunciavam que o evento voltaria à Espanha depois de 24 anos. Madrid havia recebido o maior número de votos na primeira rodada e o clima de lembrava, inclusive, o carnaval de rua brasileiro. Ainda que só tenha durado algumas horas.

Desde o domingo, quando a Espanha iniciou a reta final de sua campanha, o símbolo da candidatura (uma mão colorida com os cinco dedos esticados, que indica, segundo seu criador, a “unidade das diferentes culturas, pessoas e nacionalidades que convivem em Madrid” e também uma “saudação amigável onde se aprecia a abertura de Madrid e sua gente”) se difundiu pelo país. Os canais de televisão deixaram a marca permanente em suas telas, ao lado de seus próprios logotipos, e a rede social Tuenti, que está para os internautas espanhóis assim como o Orkut está para os brasileiros, contava em sua página inicial o número de pessoas que haviam aderido à campanha e publicado símbolo em seus perfis. A cifra ultrapassou os seis dígitos, mas minutos após a vitória do Rio de Janeiro já havia desaparecido do site.

Os espanhóis críticos ao peso que Madrid tem em relação ao resto do país ocuparam esse espaço recém esvaziado com suas versões do símbolo: uma mão só com o dedo do meio estendido ou um sinal negativo feito com o dedão.

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A crítica vai além de uma rivalidade entre Madrid e Barcelona, como se daria entre o Rio e São Paulo: a identidade espanhola em si já é um tema sensível, pois depois de anos de ditadura franquista e repressão aos costumes e idiomas regionais, a liberdade de cada comunidade autônoma sempre vira uma questão de debate quando qualquer região recebe mais atenção, seja ela financeira, política, midiática ou de qualquer outra natureza. Em algumas regiões, como Catalunha, Galícia e País Vasco, que asseguraram maior autonomia lingüística, o movimento dos anti-nacionalistas (que se opõem à centralização do poder personalizada pela capital) é ainda mais forte e se revela inclusive em temas que apenas os afetam indiretamente, como a decisão do COI desta tarde.

O novo lema dos opositores à candidatura da capital espanhola também foi criado em poucos minutos: “Me Río de Janeiro” (“Eu rio de Janeiro”, um trocadilho com o nome da capital fluminense e o verbo rir). Enquanto alguns se conformam em já saber que seria impossível uma vitória espanhola, já que os Jogos Olímpicos de 2012 serão em Londres e nunca antes um mesmo continente sediou duas Olimpíadas seguidas, outros aproveitam para azedar ainda mais o gosto da quase vitória.

Se no Brasil a crítica é a de que o governo precisa investir em educação, saúde e outros itens básicos antes de querer gastar mais de 14 bilhões de dólares em um evento esportivo, inclusive depois da gestão de qualidade duvidosa dos Jogos Panamericanos de 2007, na Península Ibérica se discute se o país deveria ou não perder tempo e dinheiro com essa candidatura em vez de se preocupar em sair da crise. Na lista de países mais desenvolvidos, a Espanha é a que mais vem sofrendo com o desmoronamento do sistema financeiro internacional do ano passado. A taxa de desemprego, por exemplo, segue na casa dos 20%, o dobro da média dos vizinhos europeus. Depois de lamber suas feridas, pelo menos Madrid não terá mais distrações, segundo dizem os mais pessimistas.

Terra Magazine

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2 Respostas para “Madri amarga derrota e o fim do sonho olímpico de 2016

  1. Ótimo texto.

    E ainda dizem que o país ingovernável da Europa é a Rússia…

    Mas diga lá, trinta anos de democracia ainda não foram suficientes para curar essas feridas, ao menos em parte?

  2. Ana Carolina Moreno

    Nem vamos falar de governo… O líder da oposição não ocupa qualquer cargo público. É pago pelo partido pra passar seus dias viajando por aí dando discursos contra o governo. E inclusive participa de debates no Congresso transmitidos ao vivo pela televisão.

    Aí a campanha não tem a ver com a sua capacidade de gestão, só com a sua capacidade de insultar o governo.

    Não entendo como as pessoas podem legitimar esse tipo de autoridade.

    A ferida está curada para a maioria das pessoas, que não viveu essa época principalmente. Mas sempre tem aqueles que dizem que agora tão querendo revogar as liberdades garantidas na última constituição igual o Franco, só que se escondendo atrás da democracia.

    E diga-lá: Rio Branco é? E que tal? Eu sempre penso que meu futuro vai ser trabalhar para o Brasil também…

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