Arquivo do mês: janeiro 2010

456 = 800

vamos, que coruña é bem mais antiga que são paulo. mas para mim ocorre o oposto.

o autor dessa magnífica foto é um dos 230 fotógrafos que participam desse vídeo incrível.

Hoje foi o meu dia (e por isso abusarei dos parênteses)

Ontem não foi o meu dia. Sono desregulado e um pesadelo bobo (coloquei um trombadinha brasileiro no meio de uma estrada portuguesa que tinha semáforo e o moleque no inverno e sem camiseta ainda conseguia atravessar a porta do carro) me acordou antes da hora e por isso voltei a dormir e quando dei por mim já não podia ir até a polícia renovar minha identidade (já renovaram a autorização de residência, só falta o documento em si, que em SP demora 24 horas e em Coruña 40 dias).

Mas hoje foi o meu dia. Só o despertador me acordou, mas dessa vez eu levantei de verdade. A chuva, que eu achava tinha sido eliminada pela mudança no clima, voltou à Coruña e vou revelar que até me alegrei por isso. O ônibus chegou ao ponto junto comigo, desci na parada certa para variar e em cinco minutos estava tomando chuva pelos jardins centenários onde a estátua da Emilia Pardo Bazán divide uns tragos com a juventude perdida em noites de verão e na véspera do Dia de Reis, por mais polar que seja a frente fria.

Minha senha era a de número 28, mas tudo bem porque a primeira era a 21 e as três funcionárias públicas que encaminham os pedidos dos estrangeiros são mais do que eficazes e em cinco minutos ela despachou todo mundo para buscar mais documentos e pagar taxas nos bancos. Eu, que não sou virgem no assunto, fui logo em direção à ponta esquerda dos jardins e entre no La Caixa, um banco que seguramente não teria ninguém. Afinal, era o meu dia.

O pai de um casal de crianças que esperava o semáforo de pedestres pensou o oposto do seu dia quando um caminhão ensopou os três e o deixou com duas crianças chorando, sem contar a necessidade de uma nova visita à casa para que elas pudessem trocar o uniforme e chegar ao colégio. Aqui não alaga, mas tem poça (e quem sabe o pai aprenda a dar uns passos para trás quando estiver dando sopa na calçada).

Paguei logo os 16 euros e 32 centavos e voltei ao escritório já vazio da polícia para deixar meus papéis. Em dois minutos tinha saído de lá e me divertia com o fato de que minha calça estava ensopada (definitivamente não era o dia dela), mas minhas meias não, porque eu vestia polainas. Sim, eu tenho um par de polainas.

Mas aí toca o meu telefone e era da polícia.

– Tem como você voltar aqui? É que tem uma coisa errada.

– Claro que eu volto (acabou o meu dia, é isso?).

Mais um pouco de chuva e imaginando se já tinha chegado aos ouvidos da polícia que a nossa festa na sexta passada acabou invadindo a madrugada, ou se o fato de que eu tinha perdido a outra identidade ia melar a renovação (sim, eu deixei o boletim de ocorrência com eles) ou se eles tinham mudado de ideia e já era bom eu começar a buscar apartamento em Lisboa para não perder o emprego.

Nada. É que hoje, no meu dia, a polícia atualizou os valores da taxa. Na verdade, a mim me correspondia pagar 10 euros e 20 centavos. Voltei ao banco, peguei a taxa errada e paguei a certa, recebi vários pedidos de desculpas de pessoas que quase nunca erram, e voltei para casa me sentindo seis euros mais rica, porque ontem não foi o meu dia.

E não vou contar para vocês sobre a minha siesta porque não gosto de provocar inveja.

Emuna

Entrevistei Roei Sadan, o dono da bicicleta à direita, para o La Voz de Galicia.

Laranja

Presente da Belén para alegrar o meu sofá.

domingo

o café da manhã tardio com a Belén no Vecchio, que virou almoço no Shouri, que virou compras de liquidação no Palexco, que virou exposição na Fundação Caixa Galícia, que virou planos para mais planos. como todo domingo deveria ser. Tem mais fotos aqui.

Galiza, afinal, é ou “nom” é Espanha?

Não sei em que idioma está o título desse post, nem o da foto acima. Se for para reduzir em um só, diria que é o tal galego-português, o idioma que provoca nostalgia em pessoas que já perderam a perspectiva do que é a independência e a autonomia aplicadas ao cotidiano atual. Ênfase na palavra que indica que o século XVII já acabou. Mas, é claro, esse idioma é falado aqui, ainda que não seja aceito pela normativa gramatical vigente do galego, definida em 2004 e que excluiu muita coisa que existe fora do papel.

Adquiri o hábito de nunca usar a palavra “país” como sinônimo de “Espanha”. Uso “governo espanhol”, “Estado espanhol” e outras variantes. Mas também não uso “país” quando quero me referir à Galícia (ou Galiza, ou Galicia). Porque não importa o conteúdo da mensagem, geralmente o que vai se destacar é o separatismo que o termo carrega. Embora as comunidades aqui gozem de mais autonomia administrativa que o estados brasileiros (apesar de eu não saber até que ponto), para um olhar de fora está tudo dentro da Espanha. E a Espanha é um país, ora.

Meu olhar vai e volta. Para alguns assuntos eu já sou uma “nativa” (veja como escapei de ter que decidir entre “galega” e “espanhola”). Como só depois das 14h, considero acordar antes das 8h uma ação digna do verbo “madrugar” e incorporei todos os palavrões fáceis de pronunciar no meu vocabulário cotidiano. Mas em alguns quesitos sigo padecendo da simplificação que afeta quem só tem conhecimento superficial de um tema.

Procuro seguir a definição que me deram uma vez: “ver Galícia e Espanha como a mãe e o pai; você ama os dois da mesma forma e não tem como preferir um ao outro”. É uma grande tucanagem, admito, e não se aplica a todo mundo. Mas, no meu caso pessoal, faz muito sentido. Até que comece a Copa do Mundo, claro. Porque a partir de 11 de junho só tenho olhos para um País. Em maiúscula.

Quando o Twitter abriu as listas, eu logo criei uma chamada Espanha, para reunir a turma que conheço daqui. Logo recebi uma mensagem de um deles, o Héctor, pedindo para ser retirado da lista. Ele foi educado e disse que não sabia como evitar aparecer em listas, por isso me pediu para não ter que me bloquear (educado daquele jeito seco bem europeu, que não tem nada de mau educado ou grosso, mas espanta quem vem do Brasil). Obedeci na hora,  e só hoje, vários meses depois, entendi a razão: ele não queria privacidade, se excluir dessa nova ferramenta. Ele só não queria ser considerado espanhol. De fato, ele pertence a várias listas galegas.

Também hoje, no MSN, elogiei a sinceridade do “meu amigo Ramón” (já conhecido em outros blogs). Tenho um pé atrás quanto ao excesso de pessoas dissimuladas que encontrei por aqui, mas ainda mantenho acesa a ideia de que isso não passa de uma má impressão que eu preciso desfazer. -Eres el español más sincero que conozco, escrevi eu. Inicialmente titubeei entre dizer “más sincero de Galicia” e a mensagem que entrou na edição final, mas na hora recebi a resposta: Ele agradeceu, mas questionou a parte do “español”.

-2

A noite em que os Celsius fugiram.