Hoje foi o meu dia (e por isso abusarei dos parênteses)

Ontem não foi o meu dia. Sono desregulado e um pesadelo bobo (coloquei um trombadinha brasileiro no meio de uma estrada portuguesa que tinha semáforo e o moleque no inverno e sem camiseta ainda conseguia atravessar a porta do carro) me acordou antes da hora e por isso voltei a dormir e quando dei por mim já não podia ir até a polícia renovar minha identidade (já renovaram a autorização de residência, só falta o documento em si, que em SP demora 24 horas e em Coruña 40 dias).

Mas hoje foi o meu dia. Só o despertador me acordou, mas dessa vez eu levantei de verdade. A chuva, que eu achava tinha sido eliminada pela mudança no clima, voltou à Coruña e vou revelar que até me alegrei por isso. O ônibus chegou ao ponto junto comigo, desci na parada certa para variar e em cinco minutos estava tomando chuva pelos jardins centenários onde a estátua da Emilia Pardo Bazán divide uns tragos com a juventude perdida em noites de verão e na véspera do Dia de Reis, por mais polar que seja a frente fria.

Minha senha era a de número 28, mas tudo bem porque a primeira era a 21 e as três funcionárias públicas que encaminham os pedidos dos estrangeiros são mais do que eficazes e em cinco minutos ela despachou todo mundo para buscar mais documentos e pagar taxas nos bancos. Eu, que não sou virgem no assunto, fui logo em direção à ponta esquerda dos jardins e entre no La Caixa, um banco que seguramente não teria ninguém. Afinal, era o meu dia.

O pai de um casal de crianças que esperava o semáforo de pedestres pensou o oposto do seu dia quando um caminhão ensopou os três e o deixou com duas crianças chorando, sem contar a necessidade de uma nova visita à casa para que elas pudessem trocar o uniforme e chegar ao colégio. Aqui não alaga, mas tem poça (e quem sabe o pai aprenda a dar uns passos para trás quando estiver dando sopa na calçada).

Paguei logo os 16 euros e 32 centavos e voltei ao escritório já vazio da polícia para deixar meus papéis. Em dois minutos tinha saído de lá e me divertia com o fato de que minha calça estava ensopada (definitivamente não era o dia dela), mas minhas meias não, porque eu vestia polainas. Sim, eu tenho um par de polainas.

Mas aí toca o meu telefone e era da polícia.

– Tem como você voltar aqui? É que tem uma coisa errada.

– Claro que eu volto (acabou o meu dia, é isso?).

Mais um pouco de chuva e imaginando se já tinha chegado aos ouvidos da polícia que a nossa festa na sexta passada acabou invadindo a madrugada, ou se o fato de que eu tinha perdido a outra identidade ia melar a renovação (sim, eu deixei o boletim de ocorrência com eles) ou se eles tinham mudado de ideia e já era bom eu começar a buscar apartamento em Lisboa para não perder o emprego.

Nada. É que hoje, no meu dia, a polícia atualizou os valores da taxa. Na verdade, a mim me correspondia pagar 10 euros e 20 centavos. Voltei ao banco, peguei a taxa errada e paguei a certa, recebi vários pedidos de desculpas de pessoas que quase nunca erram, e voltei para casa me sentindo seis euros mais rica, porque ontem não foi o meu dia.

E não vou contar para vocês sobre a minha siesta porque não gosto de provocar inveja.

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Uma resposta para “Hoje foi o meu dia (e por isso abusarei dos parênteses)

  1. Cláudio

    Olá! Peço desculpa por estar a maçar mas queria só dizer que sou um fã do seu trabalho. Sou um português que está vivendo em Santiago de Compostela e que se identifica muitíssimo com coisas que você escreve. Já a adicionei também no twitter. Sou o Cláudio_Torres. Decidi deixar mensagem para servir de incentivo à continuação de um bom trabalho. 🙂

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