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Três dicas para sobreviver ao verão coruñes

Não chove há dez dias. Meu lema “mais sol, menos problemas”, adotado em 21 de junho de 2009, andava muito bem apoiado em uma das pernas: os problemas já estavam todos resolvidos, menos a tal pergunta “quando é que você volta, hein?”, que eu tinha que ouvir três vezes ao dia. O sol… nem tanto.

Além dos três dias secos e quentes que passei em Barcelona, minha situação atmosférica ia de mal a pior. Nesses últimos dias, sem embargo (portunhol proposital, rá!), sigo mancando, só que com a outra perna. É claro que esse período tem data de validade: o problema é minúsculo, e a chuva, de acordo com os meus nove meses de experiência intensiva, é iminente. Enquanto dias melhores e menos ensolarados não chegam, escrevi a muleta abaixo para distrair a cabeça.

1) Fique por dentro do vocabulário: muitas palavras são iguais em espanhol, mas o significado é completamente diferente.

Verano = período de duração indefinida que, na Galícia, colocam entre a primavera e o outono para indicar aqueles poucos dias depois que a grama voltou a crescer muito e antes de as folhas das árvores começarem a cair. No resto da Espanha, significa o mesmo que no Brasil.

Viento = sinônimo de ar, ou oxigênio, ou qualquer coisa que está sempre (e quando eu digo sempre eu quero dizer sempre) ao seu redor quando você não está entre paredes

Solárium = lugar onde as pessoas vão para ganhar aquela cor de cenoura que só o bronzeamento artificial pode impregnar na sua pele

Crema solar = protetor solar

Áftêssún = loção pós-sol, ou after sun

Arena = grande conjunto de pedras minúsculas que servem para arranhar os banhistas nas praias de Riazor e Orzá

Sol = uma estrela grande que ilumina o nosso dia, mas nem sempre nos aquece

Aire condicionado = a praga que persegue no trabalho, nos carros de todos os meus amigos, no fretado e em todos os recintos nos quais eu entro que não são a minha casa (e meu otorrino tinha razão, aqui, longe dos trópicos, eu não tenho tanto problema respiratório…)

Cangas = uma cidade no sul da Galicia, lar do meu amigo Xavi e do amigo dele, Wally. Eu sou a única pessoa que vai de canga à praia, aqui eles só usam toalha e vão de roupa mesmo.

2) Revisite suas expectativas: as chances de uma pessoa conseguir um bronzeado duradouro e muitos dias de diversão na praia são mínimas, a não ser que:

– Ela esteja de férias (não é o meu caso)
– Ela pegue cor fácil com sol fraquinho (não é o meu caso)
– Ela trabalhe naqueles horários sortudos, como de 8h a 13h ou 17h a 23h (o segundo era o meu caso, mas só durante um mês, justo quando o verão ainda era uma mentira)
– Ela tenha carro para ir facilmente à praia na hora do almoço, ou trabalhe ali ao lado de uma praia que não lote ou vente demais (não é o meu caso)
– Ela tenha saco para sacrificar a hora do almoço com um sanduba na praia lotada de trabalhadores no horário de descanso (obviamente não é o meu caso)

Às pessoas que sim se encaixam em algum item acima ainda precisam estar sempre alertas: biquíni e toalha na bolsa, só para o caso de o sol aparecer justo na hora em que você está de bobeira. A expressão carpe diem ganha um significado extremo nessa época do ano.

3) Faça cara de “tudo bem, tudo tranqüilo, tudo normal, não estou nem um pouco chocada”: os hábitos dos espanhóis na praia são muito distintos dos nossos. Para manter as boas maneiras, é bom não apontar, nem escancarar os olhos, fazer cara feia ou dar risada quando…

– Você encontrar uma véia fazendo topless. Sim, meninos, aqui a maioria das mulheres que aderem à liberdade protegida por lei de tomar sol com os peitos à mostra são justamente as mulheres que lutaram para conseguir essa liberdade. Ou as mães delas. Ou seja, elas já estão ligeiramente passadas. Mulheres jovens que fazem topless em geral são as que estão em praias onde têm certeza de que não encontrarão conhecidos. Não é atravessar a rua e encontrar a versão “off-line” do Paparazzo. Em compensação, minhas pesquisas de campo indicam que pelo menos metade das senhoras evitam a famigerada “marquinha do biquíni”.

– Você não encontrar protetor solar em nenhum canto. Talvez eles não pegam um bronzeado tão facilmente como eu pensava, mas minha numerosa equipe de investigadoras brasileiras notou que quase ninguém se protege dos raios UVA e UVB.

– Todo mundo estiver bronzeado no começo de junho e só você ser adepta da moda “gasparzinho”. Bronzeamento aqui é como chuva: rola o ano todo. Nessa cidade de 243.000 habitantes deve ter, com certeza, no mínimo uns 50 lugares para fazer bronzeamento artificial. Eu escrevi uma reportagem sobre o tema e visitei quatro centros, mas outro dia, na depilação, perguntei pra dona do salão se ali também dava para fazer e ela me mostrou a máquina que fica em um quartinho. Não me lembro de ter recebido um “nunca” como resposta de ninguém que eu questionei se já tinha feito ou não. Mesmo se não fazem mais, praticamente todo mundo já experimentou passar uns minutos naquele bicho estranho alguma vez na vida. Homens incluídos nesta cifra mais do que científica.

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Mi casa está vacía

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Me siento en casa cuando el sonido del agua de tu ducha cesa y me despierta. Cinco minutos llenos de pequeños ruidos de toallas, productos de belleza y zapatillas después, abres la ruidosa puerta y sé que me toca levantarme.

Me siento en casa cuando el secador de tu habitación me recibe tras mi ducha. Mientras me arreglo en medio a mi caos, tú te arreglas en medio a tu impecable rutina.

Me siento en casa cuando llego a la cocina para el desayuno antes de ti y te veo mezclar leche caliente en los cereales. Y también cuando tú llegas antes de mí y, cómo tienes más tiempo, te haces una tortilla francesa para que no sientas hambre antes de la comida.

Me siento en casa al escuchar tus indefectibles pasos mientras haces todo eso. Toc, toc, toc, los tacones acompañan el ambiguo ritmo de tu cuerpo: rápido y asertivo, señal de alguien que sabe dónde va, y al mismo tiempo delicado y calculado, una revelación de tu omnipresente feminidad.

Me siento en casa cuando llego a la cocina y me obligas a guardar los platos en el fregadero, porque ya no hay un centímetro libre para nuevos platos mojados. Porque fuiste la última en usarlos y prefieres siempre usar todo el espacio libre posible para no tener que guardarles. Guardar a los platos es mi especialidad: lo hago a toda velocidad y meticulosamente arreglo las ollas conforme su tamaño y forma. Limpiar a la cocina, sin embargo, es tu especialidad. Me siento en casa cuando veo el brillo perfecto envolviendo a las tres bocas de gas y la cuarta, eléctrica.

Me siento en casa cuando escucho tu suave ronquido en las noches después que bebes vino, tu suave canto mientras tocas tus canciones favoritas en tu habitación, y nuestros nada suaves cotilleos durante las periódicas sesiones de limpieza de ventanas.

Me siento en casa cuando tu móvil empieza a tocar a la canción de Oasis Stand By Me y me trae recuerdos de mi otra casa. O cuando busco, siempre sin éxito, por la chocolatería en Los Rosales donde entramos una noche fría y lluviosa. Allí tomamos el mejor chocolate de la ciudad mientras nos reíamos de las inmensas dificultades que enfrentábamos para encontrar una casa. Me dijiste que no me agobiara, que tuviera paciencia, porque nuestra casa luego se revelaría para nosotras.

Mi casa está vacía.

Morno nunca! (infelizmente)

Aperte play abaixo e escute enquanto lê:

Em espanhol, “templado” significa “morno”. Segundo a Real Academia Española, que fiscaliza todos os meus passos nesse país, com mais afinco que qualquer órgão policial, há muitos significados para essa palavra, mas fico com o número 3:

“Que no está frío ni caliente, sino en un término medio.”

Ou seja, morno.

O problema, nesse caso, não é a distância entre a RAE e o idioma vivo que se fala por todos os cantos (e ainda se mistura, aqui no meu paizinho, ao galego, e cria uma intrigante teia lingüística onde ou existem inúmeros idiomas, ou todos sao um só). O problema é que não existe morno na Espanha. Nada tem a temperatura em um termo médio, que não está frio nem quente.

Exemplo 1: a torneira da cozinha. Para lavar a louça, é ótimo não ter apenas água fria, porque é a quente que ajuda a tirar a gordura dos pratos. Então abro a torneira no meio, um pouco mais para o quente, porque não quero água fria, mas meus dedos não querem se queimar. Resultado? A água fica fria. Solução? Abrir a torneira no lado quente e agüentar o máximo que der, mudar para a fria para dar um alívio e voltar a enfrentar o fogo líquido. Adivinha quem demora mais para lavar a louça? o/

Exemplo 2: as torneiras da pia do banheiro. São duas: a quente e a fria. A quente fica à esquerda e tem um sinalzinho vermelho. A azul da direita, obviamente, indica que dali a água só sai para congelar. Parecem torneiras normais, universais, nenhuma problema cultural. Já estão com a borracha um pouco gastas, e por isso a pressão não é das melhores. Para o simples ato de enxagüar a boca depois de escovar os dentes, não posso abrir apenas a quente, que me queima em cinco segundos e, aos dez, só cai um fiozinho de água.Felizmente, em se tratando de demora, a Nita é quem ganha, porque eu não faço escova nem passo maquiagem antes de sair de casa.

Exemplo 3: as torneiras do chuveiro. Seriam iguais às do exemplo 2, não fosse sua posição estratégica, que aumenta exponencialmente seu potencial de destruição. Todas as manhãs estou eu ali, com o órgão mais extenso do meu corpo totalmente vulnerável, enfrentando o bendito chuveiro anti-morno sem qualquer possibilidade de defesa. Me lembra meu amigo Fred, que adora a expressão “Quente ou frio. Morno nunca!” Entro com cautela, como o Mario (o irmão do Luigi) quando vai à sala onde precisa enfrentar o chefão antes de passar de fase. Viro o chuveiro para o lado da parede, para não ser atingida de primeira por esse bicho imprevisível, começo a temperar a água com a torneira da banheira, onde só as minhas mãos enfrentam o monstro temperamental, enquanto meus pés tentam fugir da água que escorre. Giro a da esquerda 300 graus, e a da direita apenas 90. Depois de cinco meses de prática quase diária, é essa a posição mais próxima que encontrei do tal templado.

Na verdade, é um quente mais ou menos tolerável, porque durante o banho começa outro ritual. Depois de alguns minutos, a água esquenta cada vez mais, mesmo que eu não mova a torneira. Então começo a abrir a torneira fria, olhando para o outro lado, assoviando como quem não quer nada, tentando despistar o Bowser Koopa e salvar a princesa. De milímetro em milímetro, em busca do morno. De repente, Bowser grita:

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“¡Aquí no hay templado! ¡Grawr!”

E eu grito uma frase impublicável, mas que rima com “puxa, que frio!”.

Volto ao ritual primeiro: fecha tudo, abre torneira da banheira, 300 graus à esquerda, 90 à direita, espera esquentar, e segue a vida.

Já tentei agüentar o calor vulcânico, mas depois fico com a pele seca e vermelha. Sem contar a tortura do durante. As outras chicas que moram comigo nunca tiveram problema com a água quente. Adivinha, então, quem leva mais tempo na ducha? o/

Aperte play abaixo antes de ler o resto:

E qual o motivo dessa história toda? Como diriam os gênios do Monty Python: “always look on the bright side of life”.

Sábado quebrou o aquecedor. A água de casa tá mais fria que o mar coruñes. Finalmente um incentivo eficaz para que eu vá diariamente à academia. Porque, entre lutar contra quente e frio (lá é igual), e agüentar só o frio…

Reforçando mitos climáticos

Há alguns meses, farta da pergunta “tá fazendo muito frio aí?”, publiquei esta foto, que neste exato momento é minha favorita do blog, para explicar que aqui em Coruña o inverno não é branco nem tão rigoroso quanto em outras partes da Europa.

Após o Carnaval, começamos (as estrangeiras, claro) a comemorar o fim da ventania galega e o sol que começava a ocupar o céu, o mar e o meu Firefox (recomendo o complemento do Accuweather para quem gosta de meteorologia).

Dessa vez venho para fazer o contrário. Publico este printscreen do meu computador, para dar-me oficialmente por vencida e aceitar os avisos de praticamente todos os locais. A foto do lado de fora da janela nem tirei porque a depressão provocada pelo simples ato de olhar para o céu já esgota qualquer força necessária para erguer a câmera, mirar e fazer clique.

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Coruñeses desse e de outros mundos, felicitem-se. Vocês ganharam mais uma adepta do lema “abril, águas mil”.

Clases de Español – 1: REMONTADA

Publicado originalmente no De Primeira

Estava eu aqui confortavelmente no sofá, escrevendo a primeira frase do meu post, que criticava o meio de campo decepcionante da Espanha hoje, na partida contra a Turquia pelas eliminatórias da primeira Copa do Mundo sem a presença do Brasil Copa de 2010. Já passavam dos 45 do segundo tempo, faltava quatro para o fim da brincadeira, e o camisa 7 espanhol, Güiza, chega primeiro que dois turcos em uma bola enfiada e consegue cruzar para o 10, Reira, chegar primeiro que o goleiro e colocar a pelota por baixo das pernas do meta. Três minutos de firulas depois, fim de jogo, Turquia 1, Espanha 2.

Os onze de Dunga contra o Equador estão mais para Turquia do que para Espanha, que nos ensina uma palavra valiosa: remontada.

No sentido literal, ela quer dizer “de virada”. A Turquia marcou primeiro, em um lance que poderia causar suspeita de impedimento, mas que foi mais culpa da confusão espanhola do que falta de visão do bandeira. Já era o segundo tempo quando o árbitro marcou pênalti após cobrança de um escanteio que virou um jogo de batata quente dentro da área turca, e acabou tocando a mão de um dos defensores.

O gol da virada foi pura sorte. O comentarista Delfín Melero, do Marca, que comentava a partida minuto a minuto, encerrou seu trabalho dizendo que a Espanhã foi “tocada por uma varinha de condão”.

Sem piadinhas, por favor, que o assunto é sério. São seis jogos e seis vitórias, apenas dois gols contra e 13 a favor (média de dois por partida). Aliás, há 31 jogos a seleção da Fúria não sabe o que é perder, um recorde conquistado pelos treinadores Luís Aragonés (campeão da Eurocopa) e Del Bosque (o atual), que hoje se iguala ao período entre 1994 e 1998, quando a Espanha foi eliminada da Copa da França. E, ao que parece, a equipe do nosso espião Marcos Senna chegará à África do Sul se achando o último biscoito do pacote. Em setembro, recebe em casa a Bélgica (7 pontos em 5 jogos) e a Estônia (5 pontos em 6 jogos). No mês seguinte, embarcar em duas viagens turísticas: Armênia (1 – hum – ponto em 6 jogos) e Bósnia (9 pontos em 5 jogos, a segunda colocada do grupo, com metade do aproveitamento espanhol).

Mas a sorte só vem com vontade. A Espanha de hoje entrou em campo sem jogadores importantes, como Fabregas, Villa e Puyol. Sentiu a falta principalmente do segundo, já que o menino-prodígio Fernando Torres esteve apagado durante toda a partida. O time jogou feio, errou passes, se desarrumou depois do gol. Mesmo assim, ganhava todos os rebotes, corria sempre mais e não se dava por satisfeita. Não se contentou com o empate fora de casa, não se acomodou com o primeiro lugar folgado da tabela, não perdeu a paciência com a barulheira que a torcida turca fez do início ao fim do jogo.

Dunga poderia vir aqui atrás de inspiração. Ou, pelo menos, buscar inspiração na inspiração dos espanhóis: João Saldanha, que hoje ganhou a companhia de Del Bosque na posição de recordista em vitórias consecutivas de um treinador de seleção. Nove. Hoje pode ser um bom dia para começar.

Em tempo
E o chocolate boliviano que está em andamento nesse instante? Pelo menos Dunga não será a piada da rodada.

Viver na Espanha é…

…só sentir fome a partir das 14h.

A estréia espanhola do meu biquíni

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De longe, bem de longe, enquanto subia por rochas empilhadas há dois mil anos pelos celtas no Castro Baroña, dava para ver um punhado de pessoas na praia Arealonga. Jogam frescobol, passeiam com seus cães, lêem livros, dormem a siesta. Umas pessoas se acomodam mais nos extremos da praia, muitas jovens demonstram muito talento com aqueles instrumentos circenses enquanto conversavam. Pouca gente se arrisca no mar gelado. Aponto minha câmera e tiro uma foto, dando destaque para a única construção humana ao pé da areia – um casarão digno do aumentativo, pintado de branco, repleto de janelas.

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Agradeço ao Marcos, que me levou até lá, por avisar de antemão que a praia era nudista. O assunto surgiu durante a manhã, quando paramos em frente à igreja de Noia para bater papo. O galego, que tem sete ou oito viagens por várias partes do Brasil, e algumas ex-namoradas verde e amarelas na bagagem, criticava o duplo sentido que dávamos para o público e o privado.

Ele tem certa razão em achar estranho que uma sociedade onde as pessoas saem à noite, se enroscam (preferi usar uma palavra mais doce) com um/a perfeito/a estranho/a e nunca mais os verão ache um escândalo o topless. Como podemos deixar tanta gente encostar no nosso corpo, mas na hora de ir para a praia, usamos aquele fio dental e, na parte de cima, um biquíni minúsculo, mas com pano suficiente para que ninguém veja o mamilo de ninguém?

Marcos vai além: até as meninas usam a parte de cima do biquíni. Como é que pode??

Naquela hora, a única resposta que eu arrisco é o fato de cada país criar seu próprio significado para cada símbolo. Praia é um lugar público, aberto, ao ar livre, onde gente de todas as idades se reúnem durante o dia. Balada é um lugar fechado, escuro, onde só duas pessoas passam por esses momentos “doces”, e ninguém liga pra eles porque cada um está buscando seu próprio açúcar. “Yo que sé”, emendo ao final.

Mas foi pisar nas areias de Arealonga que eu vi claramente: cultura é cultura. Marcos pode não entender como a gente fica nas baladas, e eu posso não entender como eles acham normal tamanho agrupamento de seios ao ar livre – nem no vestiário feminino vi tantos pares juntos de uma vez. Mas nós dois precisamos aceitar que os símbolos são esses.

Ah, mas se fossem só esses os símbolos que eu presenciei… O topless, meus amigos, é fichinha, e já sei que o verei diariamente nas praias de Coruña quando o sol permitir.

Porém, Arealonga é uma das 59 praias nudistas indicadas pela Asociación Naturista de Galicia. O grupo é bem claro ao explicar, em sua página, que “la nueva regulación en el código penal de los ‘delitos de escándalo públicos’ y la supresión de la tipificación como faltas de las conductas que atentan contra la moral convierten, teóricamente, en apto para la práctica del nudismo cualquier punto de la geografía española”. Traduzindo para o bom e velho português, isso quer dizer que esta que vos escreve corre o risco de se deparar, em qualquer lugar, com mais liberdade do que seria benéfico presenciar assim, sem aviso prévio.

A associação lista apenas as 36 praias nudistas mais populares da província de Coruña, 20 de Pontevedra e 3 de Lugo. Ourense é a única província ausente nessa lista. Atribuo a esse fenômeno o fato de essa região, em específico, não ter costa.

Fomos a uma das mais famosas, umas das pioneiras, onde, na década de 80, os jovens idealistas do movimento Tetiñas Free (tradução desnecessária) enfrentaram o pudor e o tradicionalismo para libertarem-se das roupas de banho. Esse parágrafo ligeiramente épico serve só para dizer que um dos meus professores do máster participou desse grupo de ativistas. Esse mesmo senhor toma posse, no mês que vem, no Parlamento Galego. Representando o partido grande mais conservador da Espanha.

Preparada que estava, vesti a mesma cara de pôquer que usei para entrevistar o Kassab empilhado em uma montanha de produtos piratas apreendidos, ou no CT do Palmeiras no dia em que fui levar meus amigos para conhecer as estrelas do alviverde. Transcrevo um mini-manual:

  1. Não se deixe surpreender. O que você está vendo é normal.
  2. Não reaja abruptamente, para não chamar a atenção dos outros e tornar mais difícil fingir que aquilo tudo é normal.
  3. Nunca aponte o dedo para lugar algum.
  4. Deixe a máquina fotográfica dentro da mala.

Praias naturistas não requerem que você tire sua roupa (ufa). Mesmo com alguns peladões e alguns vestidões, era óbvio que algumas pessoas eram iniciantes como eu. Achei uma menina brasileira ali perto – além de vestir o biquíni completo, o estilo do biquíni era brasileiro e o sotaque era paulistano, meu. Uma norte-america de sotaque espanhol enroladíssimo passou vários minutos admirando boquiaberta até finalmente sentar na canga e acender um cigarro de chocolate. Sem tirar a saia nem a blusa, me fazendo perguntar se ela já participou do Mardi Gras em Nova Orleans.

De minha parte, pareço ter evitado transparecer qualquer blefe. O que não quer dizer que as praias corunhesas ganharão uma nova adepta da prática.